EXPERIÊNCIA DOCENTE NA EXTENSÃO CURRICULAR DO ENSINO MÉDICO: DESAFIOS E TRANSFORMAÇÕES NA FORMAÇÃO
Resumo
A integração da extensão no currículo da formação médica tem um papel central na renovação das práticas educativas no ensino superior. A Resolução nº 7/2018 do Ministério da Educação reforça este compromisso ao estabelecer que a extensão deve constituir parte estruturante de projetos pedagógicos, promovendo uma formação mais humanizada, crítica e socialmente comprometida com a população. No contexto da medicina, esta orientação ganha particular relevância, na medida em que aproxima os estudantes das realidades e necessidades concretas das comunidades, permitindo a articulação com o conhecimento técnico-científico nas práticas de educação em saúde. Assim, a curricularização da extensão enriquece o processo
formativo, contribui para uma atuação profissional mais consciente e alinhada com os princípios de responsabilidade social. Objetivo: Relatar a experiência, os desafios e as transformações na formação médica vivenciados pelos docentes na extensão curricular. Método: Trata-se de um relato de experiência vivenciado por docentes do Centro Universitário (UNIVAG) durante as atividades de ensino da extensão curricular no segundo semestre de 2025, na área de abrangência das unidades de saúde da família do Município de Várzea Grande no Mato Grosso. O componente curricular envolvido foi o Programa Extensionista Integrador (PEI) articulado de forma interdisciplinar com o Programa de Interação Comunitária. Descrição: A experiência docente na implementação da extensão no ensino médico tem revelado um processo simultaneamente desafiante e profundamente transformador. Como docente, ficou evidente que ensinar o aluno a fazer extensão implica muito mais do que preparálo para atividades em comunidade; exige criar condições para que compreenda o seu papel social enquanto futuro profissional de saúde. Um dos primeiros desafios encontrados foi desconstruir que a disciplina curricular da extensão é uma atividade complementar. Muitos estudantes chegam ao curso habituados a uma lógica estritamente biomédica, centrada no hospital e no domínio técnico. Introduzir a extensão como eixo formativo envolve comunicação acessível, educação em saúde, ações na comunidade e reflexão ética, ou seja, requer tempo, diálogo, consistência pedagógica e planejamento semanal das ações extensionistas a serem realizadas ao longo do semestre. A resistência inicial é comum, especialmente quando as atividades exigem sair do ambiente formal da faculdade e lidar diretamente com as realidades diversas da população, ou outros cenários que não sejam unidades de saúde, tais como escolas e empresas. Outro desafio recai sobre o próprio processo de mediação docente. A extensão demanda acompanhamento contínuo: preparar os estudantes antes das ações, orientar durante as intervenções e promover momentos de reflexão crítica depois de cada atividade. Este ciclo, embora exigente, é essencial para que os alunos não reduzam a extensão a ações pontuais ou assistencialistas. Ao longo do tempo, foi possível observar que os momentos de reflexão são os que mais favorecem o amadurecimento profissional, pois permitem que o estudante reconheça limitações pessoais, aprenda a comunicar-se de forma sensível e identifique necessidades reais da comunidade. Apesar dos desafios, o potencial transformador da extensão torna-se evidente. Ao participar de projetos, os estudantes desenvolvem competências que dificilmente iriam surgir apenas em contexto teórico ou hospitalar: autonomia, capacidade de escuta, sensibilidade sociocultural e compreensão ampliada dos determinantes sociais da saúde. Para muitos, é o primeiro contato com uma medicina que ultrapassa procedimentos e protocolos, e que se concretiza no diálogo, na partilha e na responsabilidade social. Do ponto de vista docente, testemunhar esta transformação é um dos aspetos mais marcantes do processo. O estudante que inicialmente expressa insegurança ou desinteresse passa, gradualmente, a reconhecer a extensão como parte integrante da prática médica. Quando começa a planejar ações, elaborar materiais educativos, comunicar-se com clareza com diferentes públicos e propor intervenções fundamentadas, percebe-se que a extensão enriquece a sua formação, aproxima o estudante do propósito essencial da medicina: cuidar de pessoas em toda a sua complexidade. Considerações Finais: O ensino da extensão na medicina apresenta desafios significativos desde a adaptação curricular até à mudança de mentalidades, a experiência docente revela que o seu potencial transformador supera amplamente tais dificuldades. A extensão, quando integrada de forma intencional e reflexiva, fortalece a formação médica e contribui para uma prática profissional mais humana, crítica e comprometida com a comunidade.
Palavras-chave: Medicina. Atenção Primária à Saúde. Ensino.